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instrumento. Praticar diferentes linguagens, quando se começa a fazer teatro, me parece um bom caminho. Depois, quando sai da escola, mais informado, conhecendo mais as linguagens, há bases mais sólidas para responder aos seus desejos. E no tempo criativo dos ensaios, é possível aprofundar e se definir por uma estética, um tipo de espetáculo.
O permanente movimento entre o conhecimento da história, das idéias, das formulações teóricas e suas relações com o teatro feito hoje pelos que ela chama de mestres, ou criadores, desafiando e estimulando o jovem artista a se expressar, é a base da sua concepção: eu imagino uma escola multidisciplinar, global, o ir e vir entre técnica e criação. É como rios paralelos que misturam suas águas. A arte e a profissão não são coisas separadas. A profissão está em permanente evolução e busca, afirma Copeau. Estas palavras são ainda mais verdadeiras para o teatro de marionetes. Não esqueçamos que vivemos num tempo onde se multiplicam os vínculos entre os homens, artes e culturas. E que uma escola é uma oportunidade de sair do isolamento, de se abrir às práticas artísticas vindas de outros horizontes. É sobre o percurso da escola que se podem construir as pontes entre o passado e o futuro para colocar as bases menos frágeis a uma busca individual e abrir, eventualmente, as perspectivas do futuro do teatro. Eu continuo ligada à idéia de confiar à escola a construção de um percurso onde reine o espírito de abertura, a curiosidade, a coragem do risco, a criatividade, o rigor (Niculescu). Para Mangani, a arte do teatro de títeres é uma linguagem específica, com uma metodologia e instrumentos que lhe são próprios: no ator titeriteiro, o instrumento não é somente o boneco, mas a síntese. O amalgamento, se pode até dizer a incorporeidade que se estabelece entre o corpo e um objeto inerte, para transformar estes dois elementos num terceiro, que é o veículo expressivo. O que a escola busca transmitir é que a técnica, com paciência e perseverança, todos aprendem, mas nem todos são artistas. Normalmente se pensa que primeiro é preciso ter técnica para depois conseguir expressar-se, quando na verdade se vai adquirindo tudo junto. E às vezes, quando se prioriza a técnica... já é tarde.
A prioridade da escola é formar titeriteiros intérpretes, onde os princípios técnicos da confecção e da manipulação acompanhem o que a escola considera vital: interpretação titeriteira e dramaturgia. Para Mangani, essa interpretação se diferencia da interpretação do ator: continuo acreditando que a formação do titeriteiro é uma síntese superadora da formação do ator, por um lado, e da formação técnica de fazer títeres, por outro. Dá ênfase à necessidade de compreender a atividade do titeriteiro como um trabalho que exige outros conhecimentos, uma outra qualidade que não é só a do intérprete. Não se trata da simples soma do trabalho do ator com a expressividade do objeto. A interpretação titeriteira pressupõe que dessa união, da mistura de elementos que se apresentam no trabalho do ator e da expressividade das formas, resulte um outro elemento, uno, que é a interpretação mediada pelo objeto. Opera-se, assim, a fusão de dois elementos numa ligação íntima, combinada: a interpretação do ator - titeriteiro . Mangani aponta a fundamentação ideológica e estética que permeia a prática da escola: a busca interior, o autoconhecimento, o rigor de abordar-se a si mesmo exigem do artista o domínio da técnica. Mas ela precisa ser acrescida de algo seu, pessoal. Algo como cultivar-se, sensibilizar-se. Há também um fundamento ético questionando o para quê formar, pelo qual também se reflete na escola sobre a função social da arte e o papel do artista na sociedade. Não induzimos a que se posicione desta ou daquela maneira. O que fazemos, na escola, é que se pergunte sobre as coisas e se responda de acordo com sua posição própria. Tudo o que se faz significa algo e, pelo menos, se deve saber o que significa (Mangani). Ao relacionar e interligar ideologia, estética e ética, a diretora aponta para a importância de o processo de formação do artista contemplar reflexões sobre elementos como inquietude e permanente questionamento sobre a própria produção, responsabilidade social e vinculação com o contexto social onde vive. Isso reforça a crença na importância de desenvolver as capacidades expressivas e a inteligência, possibilitando o desenvolvimento mais completo do ser humano. O que se percebe, de modo geral, nas motivações das diretoras das escolas é o desejo de renovação teatral. Como diz BARBA (1995:26), se por um lado a escola é um compromisso com o que já existe, por outro, é um lugar onde as utopias se tornam realidade, onde as tensões que sustentam o ato teatral assumem formas e são colocadas em teste. (...) As escolas se iniciam para renovar o teatro, para colocar os alicerces do teatro do futuro e para ampliar as perspectivas do futuro do teatro.
Depreende-se que, para ensinar esta arte, é fundamental não confiná-la em si mesma como linguagem artística. A formação do ator marionetista contempla o estudo e a relação com artistas que trabalham com outras linguagens. Segundo Niculescu: atualmente, as definições de teatro são imprecisas. Não existem fronteiras entre os gêneros, estilos, artes. Mais do que nunca as artes da cena - e entre elas o teatro, sempre cruzado - conhecem uma fisionomia imprevisível de linguagens cênicas.
A constatação de que a produção artística contemporânea é permeada de interferências de expressões artísticas de diversos campos acaba influenciando os procedimentos pedagógicos da escola. O desafio está em ampliar o olhar do aluno ator, apoiando-se em experiências de gerações e em conceitos formulados por diferentes estudiosos do teatro. O conhecimento simultâneo da multiplicidade de expressões artísticas reforça a idéia de teatro como arte polifônica e ao mesmo tempo híbrida, heterogênea.