
Lúcia Coelho |
Teatro é Representar Sentimentos, Teatro é Emoção.
Eu nem me lembro se existia teatro infantil na minha época de criança, porque nunca fui a um. Era menina de colégio interno, ficava lá, enclausurada na escola das freiras, e na hora do recreio a gente brincava de fazer teatro. Gosto muito de lembrar desses momentos de brincadeiras. Penso que brincar e fazer teatro são duas coisas muito próximas; a gente só descobre isso depois. Mas já naquela época, eu estava fazendo teatro. Sempre foi difícil para eu definir o que é teatro infantil. Teatro é vida, é emoção, é sentimento, é busca e descoberta. Descobrir é responder a uma inquietação interior. Quando você percebe, já está dentro de um processo de criação. O interessante é que em cada momento, um novo tema nos surpreende e nos interessa. Teatro é o que a gente gosta de ver e de fazer.
Na minha vida inteira sempre fui muito ligada a crianças. Meu ideal era ter uma família com noventa filhos. Passei a vida me envolvendo com meus alunos, meus filhos de verdade e os outros filhos - que também são de verdade e que tenho uma porção - são alunos e ex-alunos de teatro.
O teatro entrou na minha vida de uma forma muito original. Eu tinha que trabalhar e ganhar dinheiro, cortar o "cordão" com a família. Minha habilidade manual abriu caminho para eu trabalhar no Ateliê de Arte do Colégio Bennett. Arte manual não era matéria curricular e eu também não tinha, ainda, descoberto minha paixão.
Tudo Começou no Bennett
Sempre fui a pior aluna de todas escolas que freqüentei. Quando me apresentavam a um novo colégio interno, eu pedia para ver o regulamento e fazia exatamente o contrário com o objetivo de ser expulsa, o que não era nada difícil. Eu não gostava de nada: nem dos professores, nem das aulas, de nada mesmo. O engraçado é que, posteriormente, tornei-me professora e sempre tive uma preferência pelos alunos rebeldes!
Meus pais, inicialmente, não me deixavam estudar no Bennett, por ser um colégio protestante e nossa família era católica. Só consegui estudar lá quando estava terminando o Ginásio, porque nessa época eu era um pouco dona do meu nariz. Quando cheguei ao Bennett, encontrei professores maravilhosos e uma, especialmente, chamada Dilma, que me disse de cara - "se você está querendo me irritar, desista, eu gosto de você do jeito que você é" - Disse mais, que eu estaria perdendo meu tempo com aquela atitude. Fui mudando a imagem do professor, vi que não era esse bicho de sete cabeças que só mandava e dava ordens. Senti que tinha encontrado amigos, parceiros, que também gostavam de inventar e de descobrir coisas novas. Conquistei a liberdade de ser e de dizer o que sentia. Comecei a ter diálogo com os mestres, que mostravam ser iguais a mim. Descobri o prazer de estudar e nunca mais parei. Foi assim que o Bennett passou a ser minha casa.
Pavor ou Emprego
Um dia, eu soube que a Heloísa Marinho estava se aposentando e deixando o cargo de professora de teatro de bonecos. Eu nunca tinha ouvido falar em teatro de bonecos, nem se quer visto ou feito bonecos. Uma amiga soube e inventou que eu poderia aceitar esse desafio: ela me ensinaria as técnicas de confecção e de manipulação necessárias. Comecei a ter aulas particulares com ela, enquanto ela falava super bem de mim para impressionar a diretora do Colégio. Era uma atriz fazendo teatro, dizia que eu era incrível, talentosíssima e muito experiente com bonecos. Eu morria de pavor, mas, ao mesmo tempo, pensava: pavor ou emprego? Resolvi que ia aprender e me dedicar. Isso foi em 1961, época em que os bonequeiros argentinos
Pedro Domingues e o
Ilo Krugli estavam chegando ao Brasil. Alguém viu
no jornal uma matéria sobre a dupla, dizendo que eles vieram para revolucionar a linguagem de animação. Era exatamente disso que eu precisava.
Emoção ao Assistir um Coelho
Eu já estava fazendo o curso, mas ainda não tinha sido tocada pela paixão. Talvez por eu nunca ter visto nenhuma peça até então, faltava-me empolgação. Mesmo assim comecei a gostar daquela turma de professores que eram muito engraçados. Um dia eles fizeram um espetáculo e aconteceu algo que eu nunca mais esqueci. O Pedro entrou em cena com um coelho. Tive a impressão de que coelho estava vivo. Não existia mais Pedro, só um coelho vivo e muito emotivo que se movimentava no palco. Até que num momento eu esqueci a mão, o Pedro, e só via o coelho, que de tanto se movimentar, ficou cansado e bocejando de sono. O Pedro "desveste" o boneco, e, com as duas mãos faz uma rede para o boneco dormir, e canta uma canção de ninar.
Comecei a chorar de emoção e a me conscientizar de que aquilo era o que eu queria fazer. Era para aquilo que eu existia. Para me emocionar com aquele tipo de arte e para emocionar aqueles que estivessem me assistindo. A partir desse dia, eu nunca mais quis saber de outra coisa. Foi ali que eu descobri para quê eu servia, foi ali que eu descobri o teatro.
A Relação Ator/ Boneco
Acredito que os bonecos são o reflexo da gente. Somos nós que transformamos uma "coisa" em ser vivo, que tanto pode ter cara e boca, como pode ser um sapato. Depende da nossa relação com ele. Meu primeiro espetáculo profissional foi o
Tá na Hora, Tá na Hora, com o Grupo Navegando. A empanada escondia apenas o rosto dos atores, deixando aparecer o corpo para que a integração boneco/ator pudesse ser sentida. Na realidade, não existem dois seres, mas um só. Considero o boneco uma extensão do artista. Depois desse espetáculo, acabei com as empanadas, comecei a deixar o ator também à vista do público, percebi que crianças e adultos olham para onde os atores estão produzindo vida, movimento.
De Esposa à Professora
Nessa época, meu sonho era casar e ter muitos filhos. De repente me aparece aquele coelho na minha vida. E não é que, por coincidência, eu me caso com uma pessoa que se chama Coelho?
Os bonecos dinamizaram as salas de aula. Eles contavam histórias baseadas nas histórias de verdade, como a Abolição da Escravatura, a Inconfidência Mineira, a Descoberta das Américas entre outras. Minha irmã, Marília Gama Monteiro, professora também é quem escrevia os textos. O engraçado é que os professores de classe não gostavam (ou não sabiam) fazer essas representações, e eu fui assumindo essa tarefa. As mães eram grandes colaboradoras, ajudavam na confecção dos cenários, dos figurinos e adereços. Os alunos - que na época tinham de nove a treze anos - participavam da construção de tudo. Tive alunos que adoravam atuar, e outros nem tanto. Uma dessas, que na época tinha dez anos, Cica Modesto, até hoje é minha cenógrafa. Sua mãe, Magda Modesto, fazia a complementação cenográfica e até atuava junto ao elenco. Outros alunos, quando conheceram o piano, não paravam mais de tocar. Às vezes, eu chamava a Cecília Conde para dar umas oficinas. Para o cenário, a gente nunca chamou ninguém, porque muitos pais eram arquitetos e nossos consultores. Fazíamos um espetáculo atrás de outro. Assim que acabava um, a gente já estava começando outro. Esses alunos cresceram e ficaram comigo oito anos.
Um belo dia chegou um novo diretor, que era muito religioso e queria que nós só representássemos peças religiosas. Se os alunos gostassem da idéia, faríamos numa boa, mas da forma imposta, como ele queria, fui contra. Como os meus alunos do TAB (Teatro Amador Bennett) já estavam se formando no segundo grau e indo embora em busca de suas vidas profissionais, fui com eles.
NAU

Convite de inauguração da NAU em 11 de novembro de 1978 |
Fundamos a NAU - Núcleo de Artes da Urca, para darmos continuidade às nossas pesquisas teatrais. Criamos oficinas de arte que também abriram espaço para novos aprendizes. As oficinas para crianças foram tomando muita força e ocupando o espaço físico da escola. A NAU tornou-se uma escola maternal enquanto nascia o Navegando, o nosso grupo de teatro.
Filosofia da Descoberta
Não é por coincidência que os navegantes oriundos do TAB hoje são profissionais de vanguarda nas artes cênicas, visuais, na literatura e na música. O fato de eles terem tido a oportunidade de experimentar e conhecer as diferentes áreas artísticas fez com que eles fizessem suas escolhas de acordo com os talentos descobertos. Tenho orgulho do meu trabalho em educação. Sendo educadora, aprendi com meus alunos. Nossa relação foi de troca, de procura através do estudo e da vontade de descobrir algo importante para as nossas vidas.
A educação não pode ser imposta, é processo de descoberta. A primeira fase é propícia para a aquisição do conhecimento. Há que se ter uma boa base intelectual, estar em dia com a modernidade tecnológica. Mas é fundamental, porém, saber que a mão vem antes da tela do computador, que a técnica só faz sentido se liberar o espírito. O conhecimento da técnica ajuda a liberar o espírito. Isto é a criatividade. Descobri que emoção não é uma coisa que muita gente conhece. Pensamos que somos livres, mas estamos sempre bloqueados pela programação que recebemos, seja da família ou social. Você só se libera da censura quando se entrega a emoção. Poucos momentos na vida nos esquecemos quem somos, e esses são os melhores momentos de criação. Estou terminando um espetáculo sobre a vida de
Galileu Galilei, e ainda não sei o resultado. Não tenho expectativa nem medo. Apenas estamos entregues ao processo.
Novas Experiências, Novas Emoções
Não gosto de repetir um espetáculo que eu já tenha montado. Até tentei, com o
Tá na hora, tá na hora que foi minha primeira peça - e de sucesso - mas não deu certo. Cada trabalho é único. Depois damos um passo à frente e caímos no mundo do desconhecido.
Tenho quarenta anos de profissão e toda vez que começo um processo criativo caio numa escuridão, onde a gente vai atrás da luz pra descobrir o caminho. Ao mesmo tempo, as idéias das outras pessoas do grupo vão se entrelaçando e tecendo um único tecido. De repente, a gente descobre algo que fizemos juntos. Trabalhar em grupo é muito bom. Eu odeio trabalhar sozinha, é muito triste. Gosto de discutir e chegar a um acordo. Ou você convence ou é convencido. Sempre podem aparecer novas idéias para substituir as velhas, mesmo que as velhas sejam as de hoje.
O Mais Importante
O trabalho mais importante é sempre o último. Para mim, o que está na saudade mais próxima é o
Bicho Esquisito. É a história de um professor que joga o desenho de um aluno no lixo e depois esse desenho se desprega do papel e vai atrás do aluno e os dois vivem uma aventura. Esse trabalho foi um grande desafio: Não tínhamos dinheiro para fazer os bonecos e nem os cenários. Mas tínhamos muito papel e resolvemos explorar suas possibilidades.Tudo no espetáculo era de papel. Adoramos tudo. Foi bom o tempo todo. Às vezes, em certos espetáculos, esbarramos em pedras no caminho que nos obrigam a parar e repensar. São empecilhos circunstanciais que transformamos em criatividade.
Fora do Ninho
O primeiro espetáculo de outra pessoa que eu dirigi foi
O Rei Mago, de Thiago Santiago. E eu nunca tinha tido essa experiência de dirigir outro grupo, nem o um texto de outra pessoa. Foi aquela coisa de sair do ninho. Fiquei super receosa, sem coragem para dirigir. Mas o Thiago acabou me dando o texto pra ler, e há um trecho em que um cego bêbado conta uma história para o Rei Melchior e termina dizendo que aquela é a história que ele gosta de acreditar. Foi justamente por causa dessa frase que aceitei o projeto: "A verdade é aquela que você escolhe para acreditar".
Quem fez o cego bêbado foi a Andréa Dantas, que trabalhou maravilhosamente bem e ainda ganhou um prêmio de melhor atriz pelo papel.
Cada trabalho tem alguma coisa boa para guardar. Tem um ou outro não tão bom, mas isso por conta das produções. Nunca gostei de equipe de produção impondo alguma coisa, porque aí você acaba perdendo a liberdade. Liberdade de fazer o que bem entender. O bom das viagens que você embarca em grupo é entrar no sentimento dos outros e conhecendo-os, você se descobre também. São nessas idas e vindas que acabamos solidificando uma criação. E esse momento é tudo de bom,
Teatro Infantil Hoje
O que faz o teatro para crianças resistir a todas essas crises é esse amor profundo que a gente tem por ele: o teatro e as crianças. Hoje em dia isso é muito difícil, porque temos que pagar a conta de luz, do gás, ajudar um filho ou um neto. As dificuldades são cada vez maiores. Imagine eu, professora aposentada? Como é que a gente vive? Sempre tentei ganhar dinheiro fazendo teatro. Até agora ainda não aprendi. Já ganhei dinheiro dando aula e fazendo outros trabalhos, que chamo de biscate. E todas as vezes que ganhei dinheiro nessas outras coisas, usei dessa experiência para fazer teatro. Mas o que nos faz sobreviver é o amor incondicional e eterno pelo teatro.
| Espetáculos para Crianças |
| Principais Espetáculos Adultos |
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Ponto e Vírgula
O Vampiro - 1991
Ai, Quem me Dera uma Estação de Amor - 1993
À Teus Pés
Meta Isso na Sua Cabeça - 1996
Os Melhores Momentos de West Side Story
Bodas de Fígaro - 1994 |
Troféu Mambembe (MEC)
1979 Melhor Produção
1980 Melhor Direção
1980 Melhor Autor
1984 Personalidade
1986 Melhor Direção
1989 Personalidade
1997 Melhor Direção
Prêmio Molière :
1980 pelo conjunto da obra e pelo trabalho a frente da NAU.
Prêmio Coca-Cola de Teatro Jovem :
1991 Melhor Cenografia e Música em Copélia
1994 Especial pela Mulher que Matou os Peixes
1997 Melhor Direção em Papagueno
Troféu Mec / Inacen
1978 Melhores espetáculos do ano : Tá na Hora, Tá na Hora
1979 Melhores espetáculos do ano : Duvi-de-ô-dó
1980 Melhores espetáculos do ano : Passa Passa
Tempo
1981 Melhores espetáculos do ano : Cara ou Coroa
1982 Melhores espetáculos do ano : Dito e Feito
1986 Melhores espetáculos do ano : O Rei Mago
1989 Melhores espetáculos do ano : Copélia |
Depoimento realizado no dia 03 de Outubro de 2006, no Teatro Cacilda Becker, dentro do Projeto Encontros e Oficinas.
Leia também as entrevistas de Lúcia Coelho realizadas no 6º Seminário Permanente de Teatro para Infância e Juventude, no
Teatro Zienbinski, em 28 de Outubro de 1997 e o primeiro depoimento dado para o site, em 03 de Outubro de 2006.